Xamanismo

A Origem do Termo Xamanismo

Para entendermos um pouco sobre o que é o xamanismo precisamos conhecer um pouco da sua história. O termo xamanismo foi originalmente utilizado para designar a prática de algumas pessoas na Sibéria. Pessoas que através de um processo de transe conseguiam se comunicar de uma forma diferente e mais precisa com outros seres que povoavam o mundo em que viviam. Estes eram os chamados Xamãs.

O mundo é povoado por seres de diversas ordens com os quais interagimos. Porém, nem todos são seres humanos. Para o xamã os seres com que podia realizar contato em seu transe ia muito além dos homens, incluía também animais, ancestrais, fenômenos naturais, lugares, doenças, pensamentos, objetos, espíritos, entre tantos outros.

Mas você leitor agora pode me questionar, “mas espíritos não existem” ou “mas, montanhas não tem consciência, não são capazes de realizar ações. Então, como alguém pode se comunicar com uma montanha ou ainda receber uma resposta dela?” Os xamãs possivelmente diriam que estes seres não são como nós, mas agem sobre nossas vidas, e que você não saber falar com eles ou perceber sua presença não os impede de existir.

Após conhecerem estes xamãs os estudiosos começaram a usar o termo xamanismo para definir práticas de diversas outras pessoas e grupos que se baseavam em um estado de transe Essas práticas nem sempre envolviam um transe espontâneo ou parecido com o siberiano , mas sempre envolviam a comunicação com não humanos através de um estado de consciência diferente do estado cotidiano, como por exemplo o transe induzido por práticas rigorosas com o corpo, utilização de plantas locais (como o tabaco ou a ayahuasca no caso brasileiro).

Ou seja meu querido irmão, xamanismo era o termo utilizado para definir práticas onde um sujeito se comunicava com diversos seres por meio de um estado diferenciado de consciência. Por isso uma grande pesquisadora portuguesa chamou-o de ‘A arte da tradução’. Para ela, o xamanismo seria uma prática de traduzir as necessidades e ações de um grupo de seres para outro. Não bastava o contato, mas para um xamã ser competente ele precisava ser eficaz na tradução entre estes grupos. Esse é o poder do xamã!

Mas perai! Então o xamanismo é uma prática restrita aos xamãs?

Xamanismo e Modo de Vida

O xamanismo não se reduz ao que é feito pelos xamãs, apesar destes sujeitos dominarem o transito e a tradução entre os mundos de cada tipo de ser com muito maior eficácia. Ele inclui praticas que todas as pessoas que vivem em comunidades com seus preceitos realizam. Ele inclui formas de se lidar com e preparar o alimento, formas de agir nos sonhos, orações e rezos, modos de plantar, colher, caçar, interagir com as pessoas, animais, plantas, etc. Ou seja, o xamanismo de cada comunidade tem suas formas de lidar com o mundo inteiro daquelas pessoas. Por isso ele vai muito além do transe dos xamãs. Não é uma religião ou uma prática de sacerdotes tribais, mas todo um modo de vida daquela população.

Compreendendo todas as práticas das pessoas o xamanismo compreende todo o mundo onde essas pessoas vivem. Isso permite que ele atue como uma forma de produzir conhecimentos práticos sobre um modo de se relacionar com todas as coisas. É como uma ciência tradicional que produz conhecimento sobre todo o universo dessas pessoas e permite a elas lidar com tudo que possa ocorrer em suas vidas.

Xamanismo e Integração

Como o xamanismo, como vimos, compreende a vida inteira das populações que o praticam quando chegavam jesuítas entre os índios de nosso país para convertê-los o resultado era um pouco curioso. Rapidamente os indígenas aceitavam a fé dos missionários, mas logo em seguida estavam novamente praticando seus rituais. Esse fato confundia os padres, mas o que acontecia é que os indígenas aceitavam a mensagem dos padres e a acrescentavam em sua forma de vida. Não era possível abandonar todo um modo de interagir com o mundo, mas nada impedia de acrescentarem a verdade dos padres à sua e tornar ela ainda mais rica!

Dessa forma, o xamanismo integrava todos os elementos que povoavam o cosmo destas populações e sempre que algo novo surgia e era vivenciado este novo elemento era incluído e validade pelas formas tradicionais de interação de cada grupo.

Compreendemos que neste momento em que vivemos estas tradições xamânicas podem ter um papel poderoso para nossa jornada como ser humano. Sua capacidade de perceber a cada elemento da vida (sejam eles internos ou externos, presentes ou passados) como um ser que deve ser respeitado e lembrado pode trazer de volta ao homem ocidental a consciência de que faz parte de todo o cosmo, ensinando a ele a perceber novamente sua integração e viver de acordo com ela.

Sua flexibilidade também trás a possibilidade de ser um modo de construção da integração e tolerância entre as ciências, as artes, as religiões e as culturas. Um meio onde conectam-se esses universos nesse alvorecer de nova era!